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História de Reguengos de Monsaraz

 

Reguengos é hoje uma das mais prósperas terras do Distrito de Évora. Já começa a ter edifícios notáveis por entre a multidão de pequenos prédios em mal alinhadas ruas primitivas, sobressaindo a todos os das famílias Papança, Fernandes e Rojão”, 1893. Foi assim que António Francisco Barata (erudito, escritor e historiador eborense) viu Reguengos de Monsaraz quando aqui esteve em finais do século XIX a preparar o seu estudo sobre o “Alentejo histórico, religioso, civil e industrial”. Alertava o leitor menos atento, ao iniciar o capítulo sobre Reguengos, que “escrever de Reguengos o mesmo é que tratar de Monsaraz, donde procede o concelho”. Efectivamente, assim é…

 

Terminada a Reconquista cristã e vencidos os mouros, D. Afonso III ordenou o repovoamento de Monsaraz e a partilha das terras do termo pelos seus moradores, que constituíam os «reguengos» medievais. No antigo termo de Monsaraz, os «reguengos» localizaram-se nos subúrbios da velha medina muçulmana – no Reguenguinho – e, sobretudo, na área onde se encontra Reguengos de Monsaraz, junto do Ramila, do Mon Real e do ribeiro do mesmo nome, zonas que parecem ter sido densamente povoadas e laboriosamente agricultadas desde a mais alta antiguidade.

Tendo em consideração os estudos de José Pires Gonçalves, Reguengos de Monsaraz desdobrava-se, por volta do século XVI, em duas pequenas aldeias, a de Cima e a de Baixo. Estas aldeias sofreram, depois, nos tempos de D. Pedro II, um grande impulso demográfico e urbanístico – sobretudo o núcleo formado em torno da

ermida de Santo António   

– que ficou assente na acção dos seus moradores no que toca à pastorícia, aos lanifícios e à lavra das vinhas. É de crer que alguns couteiros da Casa de Bragança, incumbidos do fomento equino, necessário ao esforço de guerra com Castela, aqui se viessem fixar. Entre estas gentes humildes, emigradas dos lugares mais devastados pela guerra, parecem ter vindo homens especializados nos ofícios da cardação e tecelagem das lãs merinas, matéria-prima em que estas terras, do termo de Monsaraz, eram muito ricas, pois encontravam-se na confluência das rotas pastoris da Mesta espanhola.

Uma curiosa escritura de compra e venda, existente no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Monsaraz, atesta esta longínqua existência. Nesse documento, datado de 8 de Janeiro de 1631, Lourenço Fernandes e sua mulher Gregória Bernarda vendem a António Rodrigues umas casas situadas na Aldeia de Cima das Aldeias dos Reguengos.
Este desenvolvimento económico e urbanístico marca, definitivamente, o desmembramento dos Reguengos face à freguesia da Caridade, que conduziram, em 1752, ao pedido de estabelecimento da nova freguesia de Santo António dos Reguengos (1), algo que viria a ser instituído ainda nesse ano.
A ermida de Santo António ficou servindo de igreja matriz, sofrendo, por isso, grandes alterações, nomeadamente, no alargamento da sacristia, cabeceira e nave. Apesar destas obras de ampliação, nos dias de festividades religiosas, quando os fiéis acorriam em multidão à igreja, muitos deles não alcançavam um lugar no interior da ermida. Os mais ricos e privilegiados asseguravam os seus lugares ordenando aos seus criados e escravos que esperassem à porta do templo e os ocupassem logo que as portas se abrissem. Para dar solução às graves implicações sociais e culturais (nos dias de chuva intensa, as disputas por um lugar no interior do templo, levavam a graves desordens entre os fiéis que acabavam cá fora a bater-se em rixas sangrentas), resultantes da falta de espaço da pequena ermida, gerou-se nas aldeias de Reguengos uma forte e consistente corrente de opinião pública favorável à edificação de um novo templo mais amplo. Logo em 1785, os moradores das aldeias enviaram uma petição à rainha D. Maria I (2) para que ordenasse a construção de uma nova igreja. Esta petição acabou por ser recusada, pois seria suficiente, segundo a opinião do desembargador José Peixoto de Brito Mexia (a pedido da rainha), a ampliação da capela-mor e da nave.
No século seguinte, o explosivo salto económico das aldeias dos Reguengos – derivado de aspectos como a laboração da fábrica de lanifícios, fundada por José Mendes Papança, e o parcelamento de terras nos arredores de Reguengos e a sua ampla distribuição pelos antigos foreiros da Casa de Bragança – constituiu uma grande força de progresso técnico e desenvolvimento da vila que, a par do crescimento populacional, está por trás das bases administrativas que conduzem à primeira transferência da sede de concelho de Monsaraz para a Aldeia dos Reguengos, acontecimento que ocorre no dia 17 de Abril de 1838. As razões para esta súbita alteração são diversas; a mais preponderante na decisão da Rainha foram as repetidas provas de fidelidade prestadas pelos habitantes das Aldeias dos Reguengos a favor do trono português e da causa da liberdade, contrapondo à lealdade da população de Monsaraz aos ideais miguelistas, derrotados em 1834 após seis anos de guerra civil.
A Câmara Municipal, agora localizada na Aldeia dos Reguengos, utilizou a casa de habitação de José Maria Rojão (3) para as suas sessões e audiências. Presidiu à primeira sessão na Aldeia dos Reguengos, realizada a 30 de Junho de 1838, o recém-eleito Presidente António Gonçalves Vogado, depois da demissão de José Guerreiro Contreiras alegando que a sua residência ficava a mais de duas léguas de distância da nova sede de concelho.

Uma das necessidades mais prementes com que se debateram na Aldeia dos Reguengos foi a necessidade de encontrarem um edifício para as “vereações e autos judiciais”. Por isso nomearam o Mestre de Arquitectura, Manuel Joaquim Galhordas, para se encarregar do orçamento e da planta desta obra pública. O local já estava escolhido: as casas de Alexandre José Pinheiro e de Joaquim da Costa Teixeira, situadas no terreiro de Santo António desta vila, que deveriam ser expropriadas. Em consonância com esta decisão, a vereação determinou o lançamento de um imposto de 60 a 100 réis por cada almude de vinho e aguardante, respectivamente, com destino ao pagamento dos encargos financeiros resultantes desta obra.

Ao mesmo tempo que procuravam uma casa para albergar os principais serviços municipais, estes homens diligenciaram no sentido de reforçar a posição da Aldeia dos Reguengos face à vila de Monsaraz. Neste sentido, em sessão ordinária, realizada a 7 de Agosto de 1839, decidiram por unanimidade “fazer uma representação a Sua Majestade pedindo-lhe o título de Vila Nova dos Reguengos pelos serviços ultimamente prestados pela Causa Nacional”.

No início do ano de 1840, José Fernandes Mendes Papança (Presidente da Câmara) e os restantes vereadores já sabiam que a petição tinha colhido parecer favorável da Rainha e que era necessário enviar 87:400 réis para despesas de Direitos de Mercê e do respetivo Diploma.

Finalmente, por Carta de Lei de 25 de Fevereiro de 1840, a Rainha D. Maria II eleva a povoação à categoria administrativa de vila com a nova denominação de Vila Nova dos Reguengos. A partir de então, o reino de Portugal concederá aos cidadãos e moradores da nova vila “todos os privilégios, franquezas e liberdades, que têm, e de que gozam as outras vilas e seus moradores”.

Para além das motivações políticas e ideológicas que determinaram em grande parte estas alterações de cariz administrativo, outras houve que justificaram a mudança da sede do concelho e a consequente elevação da Aldeia dos Reguengos à categoria de vila. Monsaraz era, nesta altura, uma fortaleza que tinha perdido grande parte da sua função primária: a defesa do território face ao inimigo mouro e, numa fase posterior, castelhano. Joaquim Heliodoro Cunha Rivara (4), numa visita que fez a Monsaraz, descreve-a da seguinte forma: “Só ermas ruas, só desertas praças. A velha Monsaraz nos apresenta, porque em verdade parece que um ramo de peste, ou a invasão do inimigo afugentou daquela terra os habitantes. Tanto é o número de casas desertas que por ali se encontra”.

Em contrapartida, a Aldeia dos Reguengos conhecia, nesta mesma época, um acelerado crescimento, quer urbanístico, quer económico, mercê de uma classe burguesa e produtora bastante activa. As diferenças apontadas por Cunha Rivara no seu artigo são evidentes dessa diferenciação entre as duas principais povoações do concelho: “Em poucos anos se formou assim uma pequena aldeia; e há coisa de uns sessenta anos que a comodidade do já crescido número de seus habitantes tornou necessária e efectiva a erecção de uma nova freguesia, de que ficou igreja paroquial a antiga ermida com a mesma invocação de Santo António. Continuou depois sempre em progresso a povoação; e nestes últimos trinta anos tem crescido umas boas duas terças partes. Já por duas vezes foi necessário acrescentar a igreja, que ainda assim é extremamente apertada para o concurso de um povo que hoje conta não menos de quatrocentos fogos”.

Até 1851, data em que a sede de concelho é definitivamente fixada em Vila Nova dos Reguengos, o centro administrativo foi várias vezes transferido de Reguengos para Monsaraz (1843 e 1847) e vice-versa (1846 e 1851), devido principalmente a pressões que os partidários das duas vilas promoviam junto do poder central e regional.

Pouco tempo depois, a 30 de Setembro, procedeu-se à eleição autárquica para o biénio 1852-1853. Foram eleitos Manoel Augusto Mendes Papança (5), José Gonçalves Vogado, Alexandre Lopes Correia, António Marques de Figueiredo e Domingos Godinho. Manoel Papança (1818-1886), por ter sido, nesta eleição, o mais votado, foi, de acordo com a Lei em vigor, escolhido para Presidente da Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz. É durante o período de vigência de Manuel Augusto Mendes Papança (foi Presidente da Câmara Municipal nas seguintes datas: 1852-1865; 1868-1871; 1876-1877) que a vila sofre grandes alterações urbanísticas.

Desde logo, delinearam-se novas ruas compridas, adaptaram-se os antigos caminhos e dotou-se a vila de um novo centro. Com efeito, o principal centro da vila deslocou-se da Praça de Santo António para a Praça da Liberdade, que acompanhou os novos Paços do Concelho (inaugurado em 1869). Seria, também, nesta praça que se viria a edificar a nova igreja, cujo projecto de António José Dias da Silva data de 1887. Outros edifícios indispensáveis para regular o funcionamento da Vila Nova dos Reguengos foram construídos, tais como o novo Hospital (1871), novos poços em vários locais da vila, o Matadouro Municipal (1871), o Cemitério (1866) e o calcetamento das ruas (1871). O surto urbano foi devidamente acompanhado pelo desenvolvimento agrícola e pela instalação de indústrias de panos, vitivinicultura e olivicultura. O Presidente da Câmara, Manuel Papança, foi um dos incentivadores deste projecto, criando uma comissão de grandes proprietários para proceder à compra de uma grande área de terrenos da Casa de Bragança em Reguengos, de forma a dividi-los em courelas, com o propósito de serem distribuídas pela população a baixos custos, atendendo à condição da plantação de vinhas (1 milhão de cepas foram plantadas), desenvolvendo prodigiosamente a

produção vinícola nesta região. Esta expansão do final do século XIX contribuiu para unificar definitivamente os núcleos de Reguengos de Cima e de Baixo.

A viragem do século ficou marcada por uma política vinícola de continuidade assente na figura do Dr. Joaquim Rojão (6), que deu sequência ao processo de distribuição de terrenos pelos pequenos e médios proprietários. Sendo um homem dinâmico e interessado pelos problemas agrícolas, criou, ainda no final do século XIX, o Sindicato Agrícola de Reguengos, auxiliando assim a agricultura, através da implementação de maquinaria, e incrementando a qualidade dos vinhos reguenguenses.
Outra característica da mudança do século, é o aparecimento de unidades industriais, como as moagens e a nova central eléctrica (1904), que se adaptaram aos antigos edifícios abandonados. A acompanhar este surto industrial, aparece neste início de século, a estação de caminho-de-ferro (1927), que iria revolucionar os transportes de pessoas e de mercadorias e, principalmente, alargar o núcleo da vila com uma artéria de ligação que pouco a pouco era rodeada de casas de habitação. É, neste contexto de modernidade e inovação criativa que se desenvolve a vida quotidiana da nova vila. Os cafés e locais de encontro público são, sem dúvida, espaço de discussão, entretenimento e tertúlia. O café Central, entretanto também redesenhado pelo arquitecto da nova igreja, detém papel importante na vida social e nocturna das personagens que constituem esta sociedade de progresso e cultura. Os clubes recreativos de sociedade, em voga por toda a Europa Romântica, também marcam o quotidiano da vila de Reguengos.O Reguengos Clube, refundado a partir do Grémio Recreativo e do Clube Reguenguense, vê os seus estatutos aprovados e instala-se num prédio que Serafim Brás Simões construiu na Rua Conde de Monsaraz no dia 1 de Abril de 1914.Em 1934, um jornalista, António Augusto Santos, numa nota de viagem intitulada Reguengos visto por mim (jornal O Eco de Reguengos), descreve a vila de Reguengos de Monsaraz: “(…) Começa a divisar-se Reguengos! Adivinha-se logo pela imponência gótica da sua Notre Dame, dominando a planície na majestosa elegância do predomínio absoluto de linhas verticais sobre horizontais (…) Começamos pela sua Notre Dame, o seu templo de Santo António. Motivos góticos, abóbadas em cruzamento formadas por nervos, decoração rica – a Basílica de Évora em miniatura, uma miniatura airosa, cheia de enlevo, de cor e de luz! Na Praça da Liberdade, dois objectivos me agrilhoam a atenção: o busto do Sr. Papança e a conjugação dum substantivo e seu adjectivo tornados próprios para uma firma comercial: – Rosa & Rosado – o Chiado, o Louvre da terra. O Palácio Rojão – estruturado a pedra morena – surpreende-me, ao contrastar com a casita humilde onde nasceu o Conde de Monsaraz (7) – autor da Musa Alentejana – alva como uma noite de Janeiro e quedo-me silencioso no tributo simplório devido ao seu nome, à sua obra e à sua glória, justificado orgulho dos seus conterrâneos e admiradores aos quais também eu pertenço (…) Segue-se a Sociedade Artística, onde uma decepção me aguarda (…) Retrocedemos e vamos ao cinema, não admirar Greta Garbo num Romance Sentimental (…) vamos somente admirar a sala de espectáculos, o S. Luís Cine dos reguenguenses. Por último o Hospital, a casa de saúde dessa gente tão alentejana, tão bondosa, tão hospitaleira… Linhas características, nevadas, higiénicas, um dos melhores da província, onde a assistência não é desmentida pelos seus doentes”.

(1)

Criação da freguesia de Santo António dos Reguengos (1752)

A freguesia de Santo António dos Reguengos nasceu em 1752 quando D. Frei Miguel de Sousa (de seu verdadeiro apelido Távora), então arcebispo de Évora, autorizou o desmembramento da Aldeia dos Reguengos da freguesia de Nossa Senhora da Caridade, na qual estava incorporada. Vejamos a transcrição do texto que se encontra no riquíssimo espólio arquivístico da Junta de Freguesia de Reguengos de Monsaraz:

 “Dom Miguel de Távora, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo metropolitano de Évora e seu arcebispado, Fazemos saber a todos que esta nossa carta de visitação virem que no dia 24 de Março deste presente ano de 1757 visitámos a Igreja Paroquial de Santo António dos Reguengos, a qual desmembrámos da freguesia de Nossa Senhora da Caridade no ano de 1752 por requerimento dos fregueses que tendo crescido em grande número, quererão a comodidade de ter paróquia própria separada da antiga de Nossa Senhora da Caridade, e condescendendo […] erigimos e criámos ade novo esta nova paróquia de Santo António dos Reguengos em que diante havia só uma Ermida do glorioso Santo António a qual se acrescentou mais para nela caberem os fregueses da nova freguesia (…).

(2)

Petição dos moradores da Aldeia dos Reguengos de Baixo, dirigida à Rainha D. Maria I para lhe ser edificada uma nova igreja:

“Dizem os moradores das Aldeias dos Reguengos da Sereníssima Casa de Bragança Termo da Vila de Monsaraz Freguesia de Santo António, que a mesma se ergueu antigamente em uma ermida do dito Santo, que havia em uma das ditas Aldeias, em tempo em que os Fregueses eram de muito menos número do que são hoje por se compreenderem nela quase mil pessoas de sacramento, além das muitas que há menores de sete anos (…) por cuja razão não cabem na dita Ermida os referidos Fregueses para ouvirem Missa nos dias de obrigação dela, e pela dita razão não podem também assistir todos nem a maior parte às festividades quando se fazem na dita Igreja por ter a mesma tão somente de largura quatro varas e meia, e de comprimento menos de dezassete, do que resulta, e é certo que a maior parte dos moradores e Fregueses da dita Freguesia ouvem missa de fora da dita Igreja ficando à chuva quando chove, e ao sol quando o faz; a este indizível incómodo acresce outro também muito atendível, que é o de sepultarem uma grande parte dos cadáveres fora da mencionada Igreja, que foi ermida, o que na verdade move a grande compaixão, e a viverem os ditos moradores com uma distinta desconsolação, fazendo-se assim certa a grande necessidade em que se acham de se erguer uma Igreja nova em que possam caber todos os fregueses (…) Para o dito fim há um freguês chamado Manoel Mendez Papança que por caridade, e gratuitamente oferece além da sua esmola um terreno suficiente de terra sua para nele se edificar a Igreja de que os suplicantes muito necessitam com seu adro com a largueza (…)”.

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